De uma conversa realizada na web entre membros do Grupo de Debates Noética, fundado pelo escritor e pesquisador de História João Barcellos — grupo do qual o Instituto Prylom de Pesquisas Histórico-Científicas (IPPHC) é parceiro —, obtivemos uma sinopse esclarecedora sobre o tema: E a culpa é da I.A., será? É a essa reflexão que voltamos a nossa leitura.
Vivemos, neste século XXI, uma nova era técnico-científica e industrial, marcada por plataformas digitais fundamentadas na ciência computacional. Nesse cenário, emerge a questão da Inteligência Artificial. Diante de tamanha invenção humana, terá a própria humanidade dado “um tiro na cabeça”?
Essa foi a profunda conversa realizada no Grupo de Debates Noética, do qual o IPPHC tem um membro: João Barcellos, especialista em imprensa tecnológica, com vários livros publicados, particularmente Indústria Digital (Terranova Comunic, Grupo de Debates Noética e Editora Edicon, 2013).
Barcellos esclareceu:
“Se as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) fizeram com que aplicativos industriais analógicos se integrassem ao digital, dando origem a uma indústria e a um comércio mundializados, menos antiecológicos e mais seguros nos chãos de fábrica e nas oficinas (...), digo-vos que a Inteligência Artificial veio para agregar ainda mais qualidade à produção e à vida cotidiana. Mas também não deixo de dizer-vos que: a) o desenvolvimento da I.A. é um modo de vivência tecnológica, e não um aparato robotizado destinado a substituir a Humanidade; e b) não podemos esquecer que, em todas as eras tecnológicas, das rupestres à digital, existe uma antropologia arqueológica de observação que impede uma antropofagia indireta — isto é, que uma tecnologia por nós inventada sirva de ferramenta ou arma para nos excluir biologicamente —, e isso tem funcionado até hoje. Creio, tenho fé em Nós-Humanidade, que assim continuará.
Por isso, ao ler notícias das agências noticiosas sobre o State of AI and Society — O estado da I.A. e a sociedade —, realizado na London School of Economics (Reino Unido), percebi muito ruído ideológico em torno do poder da I.A. no contexto individual e corporativo — empresarial, governamental e eclesiástico, infelizmente a trindade elitista da nossa sociedade —, muito ruído e pouca ação humanista e crítica para encarar a situação em sua simplicidade científica e estrutural: toda a parafernália industrial tem limites e, diante deles, há dois botões: ligar e desligar. Assim funciona a robótica. Logo, ter medo da I.A. é ter medo de nós mesmos, da Humanidade.”
João Barcellos resumiu a questão, descomplicando-a a partir do debate sobre o AI Act na LSE. A questão não é apenas se a I.A. substituirá milhões de pessoas em seus empregos atuais, mas, como aconteceu nas revoluções técnico-industriais anteriores, como adaptar as TICs e a I.A. àquilo que a Humanidade é hoje em sua estrutura geossocial.
Institutos de pesquisas histórico-científicas devem aprofundar os estudos sobre o que somos e o que queremos na marcha civilizatória iniciada muitas eras atrás, para que possamos nos adaptar às nossas próprias invenções.
O que não se pode fazer é simplesmente destruir a nossa histórica criatividade científica em nome de medos e credos que atingem até a nossa liberdade de estar e ser humanidade.
Por isso, o IPPHC vem estudando a questão para aprimorar diálogos — não de inteligência artificial, mas de humaníssima integridade.